
Reportagem por Victoria Lavelle / AFP
Nas vitrinas de madeira do museu há tumores, quistos gigantes e membros humanos gangrenados que atraem os olhares curiosos dos visitantes. "Fascinante e assustador", é uma descrição frequentemente usada.
A instituição, que possui 35.000 peças, entre elas 6.000 espécimes biológicos, foi criada em 1863 a partir da coleção pessoal de um cirurgião local, Thomas Mütter, com fins pedagógicos.
Ao longo dos anos, o acervo foi enriquecido por médicos, mas também por dadores vivos. Em 2020, um transplantado cardíaco doou o coração, do tamanho de uma bola de futebol. O órgão hoje flutua num frasco junto com 139 crânios humanos coletados por um anatomista austríaco no século XIX.
Em 2023, com o impulso de uma nova direção, o Mütter, que recebe mais de 130.000 visitantes por ano, lançou o Post Mortem Project, cujo objetivo era refletir com os visitantes sobre a melhor forma de apresentar os exemplares, adquiridos, na maioria, sem o consentimento dos pacientes e expostos sem detalhes sobre a sua identidade.
Como parte deste processo, o museu apagou centenas de vídeos de um canal no YouTube, que tem mais de 100.000 seguidores, assim como uma exposição digital no site.
"Foi quando começou a polémica", lembra Kate Quinn, ex-diretora do Mutter, que iniciou o projeto. "Eram conversas internas que ganharam grande relevância pública após a eliminação dos vídeos no YouTube".

Protect the Mutter
Num artigo de opinião publicado no The Wall Street Journal, um ex-diretor do museu lamentou que "um punhado de elites woke questionem o passado do museu e comprometam o seu futuro", usando um termo que os conservadores costumam aplicar de forma pejorativa para referir-se a ideias progressistas.
Pouco depois, formou-se um grupo de ativistas chamado Protect the Mutter (Protejam o Mutter). A petição lançada que exigia a demissão de Quinn, reuniu mais de 35.000 assinaturas.
"O conteúdo online estava a ser destruído, havia mudanças de pessoal, alguns eventos do museu foram cancelados", como a popular festa anual de Halloween, disse à AFP uma integrante do grupo, que preferiu permanecer no anonimato.
Incomodado com a controvérsia, o paciente que doou o coração tentou recuperá-lo.
Quinn, que deixou o cargo há alguns meses, garante que a direção "não queria mudar o museu radicalmente".
"O objetivo era incluir as pessoas no debate para que nos acompanhassem nesta aventura", afirma, lamentando que "isto tenha tomado tais proporções".

Tirar do anonimato coleção de restos mortais
Polémicas semelhantes aconteceram noutras instituições ocidentais nos últimos anos, como o Museu Britânico de Londres.
Recentemente, o Mütter apresentou as conclusões de seu Projeto Post Mortem durante um evento especial, com o objetivo de "contextualizar" e tirar do anonimato a coleção de restos humanos.
A percorrer os tapetes de cor púrpura do museu, imersos em uma atmosfera vitoriana, os visitantes puderam aprender mais sobre a vida de Mary Ashberry, uma mulher com nanismo, cujo esqueleto está exposto, ou de Joseph Williams e seu "megacólon" de 2,4 metros de comprimento.
"A questão não é se devemos ou não expor restos humanos, mas se podemos fazê-lo de uma forma que faça justiça a estas pessoas e a sua história", explica Sara Ray, nova codiretora.

Embora "as pessoas sempre tenham sentido um fascínio pelo corpo humano e pela sua diversidade", explica à AFP a antropóloga Valerie DeLeon, "há algum tempo, olham para estas coleções e perguntam coisas sobre as pessoas representadas, como 'escolheram estar ali?'"
A nova direção recuperou 80% dos vídeos no canal do YouTube, uma decisão comemorada pelos membros do Protect The Mütter.
Mas ainda há perguntas difíceis a responder, como o que fazer com as peças anónimas, questiona uma ativista, dando como exemplo o esqueleto de um homem de 2,29 metros, cujo nome é desconhecido.
"Este exemplo de acromegalia deve ser exibido com respeito e ajudar as gerações futuras a compreenderem melhor uma doença cronica que continua a afetar as pessoas diariamente", avalia a integrante do Protect The Mütter.
Comentários