O Vale dos Amores fica próximo da estrada principal, mas está escondido num vale.

créditos: andarilho.pt

Há dois núcleos de casas velhas de xisto. Tem muitas árvores e, devido à abundância de água, algumas habitações estão rodeadas de fetos, criando um bonito efeito decorativo.

Vale dos Amores
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Muitas habitações continuam de pé. Quase todas têm uma única porta e um postigo rasgado na parede para entrar um pouco de luz. É através da luz natural que conseguimos ver alguns objetos deixados pelos últimos moradores. Vemos também como estava organizado o interior de cada habitação, a rotina familiar.

Vale dos Amores
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Honorato Neves, interessado pela cultura popular, promotor de um núcleo museológico na Meimoa sobre etnografia, recolheu há alguns anos os testemunhos de três mulheres que nasceram e viveram durante muitos anos em Vale dos Amores. “Elas contaram-me dentro das casas onde faziam a cozinha e onde dormiam.

Vale dos Amores
O quarta da casa créditos: andarilho.pt

Costumavam dizer que dormiam ao monte. Quem dormia no quarto era o casal. Sempre. Nota-se nas casas o compartimento fechado onde dormia o pai e a mãe. O resto era à molhada.”

Vale dos Amores
Honorato Neves créditos: andarilho.pt

Honorato Neves registou em fotografias o regresso ao Vale dos Amores da “ti Palmira, a ti Isabel Paca, a Bia do João Tónio. Gostaram de ir ver. Isto foi há alguns anos e naquela altura já não havia mais ninguém para contar histórias do Vale dos Amores”.

Vale dos Amores
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Um dos aspetos importantes da visita é que percebemos no próprio local como era rude a vida dos pequenos agricultores que trabalhavam para sobreviver. “Dificuldades de sobra. Fartavam-se de trabalhar para dar o sustento aos filhos, à família.”

O povoado teve origem há quase um século, com três irmãos a adquirir o terreno. Eram rendeiros numa quinta e os donos queriam eles próprios explorar a terra. “A Eirinha era uma quinta um pouco mais à frente onde os rendeiros eram quase todos da Meimoa. Pessoas com gado, ovelhas, cabras, vacas e pagavam uma renda a uma senhora rica de uma família de Penamacor.

Vale dos Amores
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Diz-se que por volta de 1928 os donos da quinta contrataram pastores e ganhões, muitos deles da Meimoa, e passaram a explorar a quinta. Quem lá estava como rendeiro teve de sair  e arranjar uma casa para a família. Foi o que fizeram esses três irmãos que compraram o Vale dos Amores.”

Vale dos Amores
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A procura do terreno conjugou-se com a urgência de um padre em vender a propriedade, que na altura se chamava quinta dos Escaramouços. “O bispo terá dado ordem de expulsão ao pároco de Meimão que era o dono daquela quinta. Reuniram-se os três irmãos e compram a quinta ao padre.

Vale dos Amores
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Os irmãos dividiram a quinta em três partes. O terreno tem uma fronteira a meio, um ribeiro. A parte maior ficou para dois  irmãos. Na altura não havia aquelas casas. Foram os três irmãos que as construíram e, depois, o povoado foi aumentando com o crescimento do numero de pessoas e de mais casais.”

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Ao longo do tempo, o número de famílias e o povoado foi aumentando, “nasceu lá muita gente. Lembro-me do meu tempo de escola, do Vale dos Amores e mais uma ou duas quintas por ali, vinham grandes ranchos de garotos para a escola. Vinha tudo a pé. O povoado teria cerca de 20 famílias.”

Vale dos Amores
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O ribeiro que divide a quinta ajudava os trabalhos agrícolas, mas a propriedade era mais conhecida por ter raparigas bonitas. “Há quem diga que entre 1930 e 35, o Dr. Mário Bento, o homem do museu da Meimoa, ouviu falar que a quinta dos Escaramouços tinha muita rapariga nova. Um dia fez uma caminhada e foi lá. Quando viu aquele vale cheio de fruta, cultura de batata, feijão, muita água e quando viu também aquela juventude toda, o Dr. Mário teve a expressão "Que lindo vale de amores!" Daí para a frente ficou com esse nome.”

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Ficou o nome de Vale dos Amores mas a vida difícil não encantava os mais novos. Emigraram e os mais idosos ficaram até poderem. “As últimas pessoas que viveram lá, eu lembro-me de virem para o povo já com alguma idade. Por volta da década de 70 essas pessoas vieram viver para a povoação. Eram casais que estavam sós. Os filhos já tinham tratado da vida, casado, filhos... e quando vieram para aqui foi o casal com alguma idade.”

Vale dos Amores
Um dos fornos do povoado créditos: andarilho.pt

Entre a vegetação densa, os fetos, as construções rudimentares, a eira comunitária e o universo isolado da comunidade, retenho a imagem de uma das habitações. Restam ainda as pedras de xisto que se projetam para fora da parede, serviam de floreiras onde colocava os cravos. Junto à porta estava habitualmente uma pedra de granito, o banco onde Joaquim Costa se sentava à noite.
“Eu achava interessante a parte cultural deles. Vivia lá um homem que tocava harmónio. Eu era rapazola e ainda fui a uns bailaricos onde ele tocava. Ele era a alegria do Vale dos Amores. Tinha um harmónio, chegava à noite, depois de tratar das hortas, dos animais..... comiam a ceia abreviada, sopa e pouco mais, e ele divertia aquela gente toda.”

Vale dos Amores
Praia fluvial de Meimoa créditos: andarilho.pt

Nos dias de hoje, em particular no Verão, são outros os lugares de encontro de raparigas bonitas e de vales de amores, como por exemplo, a praia fluvial de Meimoa.

O Vale dos Amores faz parte do programa da Antena1 Vou Ali e Já Venho, e a emissão deste episódio pode ouvir aqui.

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