
O automóvel Hindustan Ambassador saiu da linha de montagem pela primeira vez na década de 1950, com um design que quase não mudou nas décadas seguintes, e já dominou as ruas esburacadas da Índia.
Hoje em dia, raramente é visto fora de Calcutá, onde serve como a espinha dorsal da frota de táxis metropolitanos e é um símbolo da identidade da cidade.


Mas os números estão a diminuir rapidamente, e uma decisão judicial dita que aqueles que permanecerem - pesados, mas ainda resistentes - serão forçados a sair totalmente das estradas nos próximos três anos.
"Eu amo o meu carro como o meu filho", disse à AFP Kailash Sahani, que se sentou ao volante de um táxi Ambassador nas últimas quatro décadas. "É um carro simples - sem eletrónicos, sem frescuras", acrescentou o homem de 70 anos. "É inacreditável o quanto as coisas mudaram... O fim desses carros de táxi também marca o nosso fim".
Sahani está entre os milhares de taxistas de Calcutá que tiveram de abandonar os seus veículos devido aos rígidos padrões de emissões introduzidos em 2009 para aliviar o problema de poluição na cidade.

Apenas cerca de 2.500 táxis Ambassador ainda estavam a circular no início deste ano, bem abaixo dos sete mil do ano anterior, de acordo com dados da Associação de Táxis de Bengala.
Outros mil serão retirados das ruas este ano, e o ministro dos Transportes do estado de Bengala Ocidental, Snehasis Chakraborty, disse à AFP que o restante desaparecerá até o final de 2027.


Um símbolo da independência ao colonialismo britânico
"O carro é forte. Peças e manutenção são baratas e, se avariar, é fácil encontrar um mecânico", disse o porta-voz da Associação de Táxis de Bengala, Sanjeeb Roy para quem o desaparecimento do automóvel "representa tudo o que há de errado com a economia em mudança da Índia".
O Hindustan Ambassador foi a pedra angular da indústria automóvel da Índia por décadas, desde a estreia em 1957 numa fábrica na periferia norte de Calcutá.


O carro foi uma conquista da indústria nos primeiros anos da história da Índia como nação independente. Um modelo de luxo, com janelas adornadas com cortinas de renda, foi durante anos o principal meio de transporte para ministros e empresários.
Mas as deficiências do carro também serviram como um lembrete dos profundos problemas estruturais do sistema económico da época. Os compradores ficaram em listas de espera por anos porque a burocracia generalizada impediu a Hindustan Motors de aumentar a produção para atender à procura, enquanto um quase monopólio nas vendas não deixava incentivo para manter os padrões de qualidade.
Isso deu origem a uma piada frequentemente repetida sobre os muitos defeitos encontrados no "Amby": a única coisa no carro que não faz barulho é a buzina.
A partir da década de 1980, com alterações no sistema económico, o Ambassador começou a ser trocado por veículos mais modernos, e a produção foi totalmente interrompida em 2014.

Calcutá, uma cidade em declínio
Calcutá, a sede da Hindustan Motors, é o último lugar onde os carros são vistos em grande número, o que não deixa de ser um lembrete das amarras que ligam a cidade ao passado da Índia.
Grandes edifícios públicos evocam as riquezas que fluíam pelas avenidas arborizadas quando era a segunda maior cidade do Império Britânico, depois de Londres.
O poeta, vencedor do Prémio Nobel, Rabindranath Tagore nasceu e morreu em Calcutá, onde o hino nacional que compôs foi cantado pela primeira vez durante a longa luta pela independência.

A cidade também é conhecida pela vida noturna agitada, com restaurantes lotados e mal iluminados que continuam a servir os mesmos pratos da era colonial.
Mas a sua importância tem vindo a diminuir, primeiro com a mudança da capital da Índia para Deli, em 1911, e depois com a ascensão de Mumbai como o centro comercial mais importante do país.

Muitas das gerações mais jovens de Calcutá partiram em busca de melhores oportunidades noutros lugares, deixando a cidade com uma população mais envelhecida do que a média de outras urbes indianas.
"Pessoas como eu estão sob pressão para acompanhar os tempos", disse à AFP o professor reformado de Calcutá Utpal Basu, de 75 anos. "Carros velhos vão, novos vêm", acrescentou. "Mas vai partir o meu coração quando a cidade perder outro ícone."
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